A NEGAÇÃO DO
NEGAR-SE, NA NEGAÇÃO DE SI.
Por: Alexandre Chaves / @pr_alexchaves
Por: Alexandre Chaves / @pr_alexchaves
“Dizia
a todos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a
dia tome sua cruz e siga-me” Lucas 9:23.
Existe
uma lenda proveniente da Grécia antiga, sobre um oráculo,
caracterizado por sua infalibilidade. Pessoas que exerciam autoridade
naquele contexto, ou mesmo pessoas comuns, não tomavam decisões
importantes sem antes consultá-lo. Toda a autoridade daquele oráculo
se fundamentava e se sustentava na tradição sedimentada por
séculos.
Dois
episódios exemplificam a relação dos povos antigos com os
oráculos. O primeiro, refere-se à batalha das Termópilas, na qual
a guarda pessoal do rei Leônidas de Sparta, composta de trezentos
bravos soldados, teve que resistir até à morte, trezentos mil
soldados persas, comandados pelo terrível rei Xerxes – na Bíblia
chamado de Rei Assuero (519 a.C. a 466 a.C.). Esta Batalha se deu
após a desobediência do Rei Leônidas, uma vez que, o oráculo o
havia aconselhado a não ir à guerra.
No
segundo episódio, a lenda grega conta a história de um rei que, na
iminência da guerra, recorreu ao oráculo, o qual lhe deu a seguinte
resposta: “Irás voltarás não morrerás ali”. Tendo ouvido
isto, o rei mobilizou o seu exército, foi, não voltou e morreu na
batalha. Este acontecimento pôs em dúvida a confiabilidade e a
infalibilidade do oráculo, bem como toda a tradição na qual se
sustentava.
Diante
de tal obstáculo, os sábios se reuniram, examinaram o caso, e
chegaram à seguinte conclusão: o rei, devido o seu estado de
apreensão, não prestou atenção à pontuação contida no
enunciado. A frase não dizia: “ Irás voltarás não morrerás
ali”. Mas sim, “Irás. Voltarás? Não, morrerás ali”. Deste
modo, os sábios conseguiram manter intacta a credibilidade do
oráculo, como também aquela tradição vigente no mundo helênico.
O que
podemos perceber nesta pequena história é o esforço dos sábios do
mundo em questão, para preservar a confiabilidade daquele oráculo.
O objetivo era a preservação da ordem vigente e o curso natural
daquela sociedade, pois questionar o veredicto do oráculo poderia
causar desordem, lançando dúvidas sobre todas as decisões –
passadas e futuras - o que poderia dar origem a uma crise
institucional sem precedentes.
O
homem, sua sabedoria e sua tradição constituíam os três pilares
que sustentavam aquela sociedade. Olhando para o mundo atual,
constatamos que pouco ou quase nada mudou. O homem moderno continua o
seu esforço para salvaguardar conhecimentos destinados à manutenção
do curso do mundo; continuam pretendendo conservar inabaláveis os
fundamentos humanistas que orientam e moldam o pensamento do mundo,
onde ele é o centro.
O
Apóstolo Paulo, ao se dirigir aos irmãos de Colossos, os adverte
contra o risco de fazer do Evangelho – a boa nova de Deus – algo
passivamente conformado aos velhos rudimentos do mundo: “Tende
cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de
filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo
os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo”. Colossenses 2:8.
Conformar
o Evangelho ao sistema do mundo, significa transformá-lo numa
religião na qual o homem é o centro e o agente – e não Cristo.
Um Evangelho assimilado pelas práticas vigentes na cultura do mundo,
pode convergir para três noções - igualmente falsas. A primeira é
que, Deus avaliou mal o homem e o seu pecado. A segunda é que há a
possibilidade do homem satisfazer a justiça divina sem a morte com
Cristo e, a terceira, diz que o homem é capaz de servir a Deus, sem
Cristo.
Mas,
alguém poderia dizer: jamais algum cristão falaria tal coisa! Não
existe qualquer tratado teológico que expresse categoricamente tal
afirmação! Talvez não, mas deixando os tratados teológicos de
lado, devemos dedicar especial atenção aos significados
dissimulados nas entrelinhas de muitos sermões que são atualmente
pronunciados nos púlpitos, bem como, nas práticas de boa parte da
chamada “cristandade”. Veremos que as mensagens pregadas estão
cada vez mais próximas, e sutilmente ajustadas ao curso deste mundo.
Quando
tentamos sustentar nosso relacionamento com Deus, com nossos
possíveis “acertos”, estamos, na verdade, nos autoafirmando
enquanto velho homem. Quando negamos alguma prática pecaminosa na
base do rigor ascético, e tomamos esse esforço pessoal como uma
credencial para entrar com confiança na presença de Deus, isto é
sinal de que, para nós, o pecado não é tão forte assim, e que
somos capazes de vencê-lo. A esse respeito, a Escritura nos
diz: “Pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as
suas manchas? Tampouco podeis vós fazer o bem acostumados que estais
a fazer o mal. Jeremias 13:23.
Olhando
para o texto de Lucas, Dizia a todos: Se alguém quer vir
após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me,
percebemos que a sentença logo de início revela o caráter inovador
do reino de Deus, no qual Cristo é a Rocha que sustenta todas as
coisas por Sua Graça – contrastando com o sistema vigente no
mundo.
Esta
passagem nos mostra que o Deus todo poderoso se fez fraco para ouvir
a vontade do fraco, quando diz: Se alguém quer vir após
mim. Em um mundo onde o forte não abre mão do seu poder, a
vontade do fraco é desprezada e, a vontade do forte é imposta. Por
isso, as palavras de Jesus soam como subversivas e perigosas a quem
quer manter a ordem do mundo tal como está.
Esta
situação muito se agrava diante da condição trazida por Cristo
àqueles que, de algum modo, expressam uma vontade positiva de
segui-lo, negando-se a si mesmos. Negar a si mesmo significa ir
contra a correnteza. Isso não faz sentido a um mundo completamente
corrompido pelo pecado.
Neste
mundo eu tenho que ser, e não deixar de ser. Tenho que me
autoafirmar e não me negar. O negar-se acaba com as guerras, com a
opressão, com a violência, com a desigualdade e com a
competitividade, ou seja, acaba com a força propulsora do mundo.
Você já imaginou um mundo onde ninguém quer ser mais do que o
outro; cada um considerando o outro superior a si mesmo em pleno
contentamento?
O
negar-se é uma bomba para o mundo, pois todo o sistema que o
sustenta seria reduzido a nada. É neste ponto que os sábios deste
mundo entram em ação com suas acrobacias exegéticas, ou pela falta
dela, tal como os sábios da Grécia antiga o fizeram. No que se
refere à perspectiva da religião, usam de todos os artifícios
possíveis para que o mundo, como sistema, não entre em colapso.
Eles transformam o “negar a si mesmo”, na negação do
negar-se, fazendo da auto-negação, um meio pelo qual possam se
autoafirmar, assim com o fariseu no capítulo 18 de Lucas. Lançam
mão da dialética da negativa do não ser, para se auto-afirmar
enquanto ser.
Pois,
ao dizer: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os
demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este
cobrador de impostos. Lucas 18:11; ele, na verdade, está
dizendo: eu sou especial e, em vez de negar a si mesmo ele se
autoafirma. Quando ele se apresenta como diferente dos demais homens,
quer afirmar a sua própria justiça e santidade, em vez de negá-la,
assim como tudo o que lhe diz respeito. Ao contrário do fariseu,
Paulo admite:“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne,
não habita bem algum, e com efeito o querer está em mim, mas não
consigo realizar o bem”Romanos 7: 8.
Ao
pretendermos fazer do Evangelho um meio de nos autoafirmar e de nos
diferenciar dos demais, estamos dizendo um NÃO ao chamado de Cristo
para sermos seus discípulos, pois Ele diz: se alguém quer
ser meu discípulo, a si mesmo se negue. Isto significa recusar a
Cruz que é diária e, andar no sentido contrário ao Senhor Jesus,
ainda que possamos dizer: jejuo duas vezes por semana e dou o
dízimo de tudo quanto tenho.
A
verdade que queremos mostrar é que, para a nova criatura é
impossível viver ou fazer qualquer coisa, a não ser em comunhão
com o Cristo morto e ressurreto, e isto se expressa na dependência
total da manifestação da vida de Cristo nele, o que elemina toda e
qualquer jactância: Sem mim nada podeis fazer. João
15:5. Viver de modo diferente é invalidar a novidade do
Evangelho, conformando-o ao sistema velho do mundo, onde o homem é o
agente e por isso pode se vangloriar.
Com
isto, a religião torna-se uma espécie de saída honrosa, porém
inútil, para o homem no pecado. Que não admite negar a si mesmo e
nem a solução proposta por Deus na cruz do calvário. E por mais
paradoxal que isto pareça, buscam na pregação baseada neste texto
de Lucas 9:23, a autoafirmação do homem, mantendo assim, o pecado e
os velhos rudimentos do mundo intactos.
Isto só
é possível quando negamos o veredicto da Palavra que diz: a
alma que pecar esta morrerá. Ezequiel 18:4. O velho homem
se desespera diante da imutável Palavra de Deus por não admitir que
para ele existe somente uma solução: morrer. Não consegue negar-se
e abandonar-se à morte, mas tenta desesperadamente firmar-se na
“possibilidade” de satisfazer a santidade e a justiça de Deus em
si mesmo.
Se essa
possibilidade existisse no próprio homem, o sacrifício de Jesus
Cristo seria desnecessário. Aliás, seria uma incoerência divina
diante da Sua própria essência amorosa, expor Jesus ao Massacre da
Cruz, se o homem pudesse por si mesmo libertar-se do pecado e da
morte. Em outras palavras, se o homem pudesse negar a si mesmo, “Mas
longe de mim esteja gloriar-me, a não ser na cruz de Nosso Senhor
Jesus Cristo, pelo qual o mundo está crucificado para mim e eu para
o mundo”. Gálatas 6:14.
Por Alexandre Chaves.


Que Deus continue nos trazendo à Luz, através de estudos como este, a uma realidade obscura a qual estamos muitas vezes submersos sem nem mesmo nos darmos conta. Afinal "é necessário que ele cresça e eu diminua".
ResponderExcluirMuuuito bom!
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