O DESASTRE DO ODRE VELHO, por Glenio Fonseca Paranaguá.
Já me assemelho a um odre na
fumaça; contudo, não me esqueço dos teus decretos. Salmo 119:83.
Odre defumado é odre envelhecido.
Sou antigo, sou velho como Davi, mas ainda não me esqueci do concerto da graça
feito com Abraão. Os decretos eternos ainda não foram substituídos. A graça
nunca foi temporária ou provisória. Por isso, o evangelho acaba escandalizando
a religião construída na esteira da história exalando a pecado e transpirando
pelo esforço da carne.
Jesus foi consultado por uma
turminha que achava esquisita a falta do jejum entre os seus discípulos. Essa
gente ardilosa apontava para os discípulos de João e dos fariseus como sendo
praticantes exemplares dessa disciplina da alma, e indagava de Jesus a ausência
desta matéria entre os alunos do Mestre da Galiléia.
Jesus, porém, lhes disse:
Podeis fazer jejuar os convidados para o casamento, enquanto está com eles o
noivo? Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo; naqueles dias,
sim, jejuarão. Lucas 5:34-35.
A partir desta resposta o Senhor
lhes conta uma parábola bem esclarecedora para mostrar o equívoco da religião
do mérito.Ninguém tira um pedaço de veste nova e o põe em veste velha; pois
rasgará a nova, e o remendo da nova não se ajustará à velha. E ninguém põe
vinho novo em odres velhos, pois o vinho novo romperá os odres; entornar-se-á o
vinho, e os odres se estragarão. Lucas 5:36-37.
Jesus vai tratar aqui nesta
parábola de um modelo já ultrapassado. O Judaísmo vigente em sua época era um
sistema arquitetado no tempo em que o povo Judeu estivera escravo na Babilônia.
Tratava-se de um recipiente formatado na mentalidade humanista e que havia se
tornado arcaico e sem qualquer significado para a realidade nova que estava em
processo na vida da nova comunidade da Galiléia.
A fé cristã em andamento não
cabia neste odre enrijecido, atrofiado e prestes a se romper com a expansão
natural do mosto novo em sua força efervescente. Um odre esclerosado e
inflexível não suporta a dilatação causada pelo frescor do vinho jovem. O
sistema religioso do velho judaísmo não aguentaria a amplitude da liberdade
cristã.
Para Jesus, o vinho novo
deve ser posto em odres novos [e ambos se conservam]. Lucas 5:38. As novas
do Evangelho devem ser acondicionadas em odres novos. A greve de fome não pode
subsidiar a fartura do Pão. A tristeza do velório não consegue garantir a festa
do casamento com a sepultura escancarada. O modelo da obediência a fórceps
sacado pela lei, nada tem a ver com a obediência patrocinada pelo amor
incondicional.
Nós precisamos entender a velhice
de uma proposta, sem, contudo, nos atrelar à terrível caduquice de qualquer
sistema que tenha sido condenado por Jesus. O Cristianismo, pelo tempo
decorrido, já é um odre na fumaça, todavia, é imperioso ver a sua atualidade.
Vamos procurar descobrir aqui aquilo que é permanente no estilo cristão; aquilo
que foi introduzido pelos adversários camuflados; e aquilo que faz parte do
momento histórico.
A fé cristã já tem bastante
tempo, mas continua jovem e renovando-se. O que envelhece no processo é o
religioso que nela foi implantado. Há muitas coisas que foram adicionadas ao
cristianismo que nunca fizeram parte da sua essência. São apêndices exógenos
que lhe têm maculado a sua história.
O permanente é o amor
incondicional de Abba; é a Casa da liberdade de um Amor sem limites
e sem fronteiras. Os mandamentos da fé cristã se reduzem a amar. O culto
cristão é a festa da ágape em comunhão familiar, conduzido pelos dons
espirituais. A igreja, portanto, não se parece em nada com uma sinagoga gerada
na escravatura da Babilônia.
O odre judaico já se encontrava
“mochibento” e seco. Este sistema arcaico funcionava sob a influência política
de uma hierarquia sacerdotal conspurcada nas fortalezas de Anu, isto é, no
panteão sombrio do deus das trevas, fomentado pela filosofia humanista da
confusa revolução lenta e sutil de Ninrode. Vejamos Gênesis 10:10-11.
No tempo de Jesus, o judaísmo não
tinha mais a Arca da Aliança no lugar Santo do templo, mesmo assim, o Sumo
Sacerdote entrava, anualmente, no dia da purificação, naquele lugar Santo, para
espargir o sangue no propiciatório. Mas onde estava a Arca? O quê é feito do
propiciatório? Era tudo um teatro? Sim, não havia mais a realidade do culto.
O odre judaico fora estragado
pela fumaça do humanismo babilônico. O fogo ardente das vaidades havia coberto
de fuligem a estrutura da religião marcada pelas paixões carnais.
A Babilônia tem uma história
longa com Israel. Abraão foi retirado de lá, mas o velho babilonismo o
perseguiu para tentar sequestrar o seu sobrinho na conspiração dos quatro reis
conta cinco. Gênesis 14. Além do que, foi longa a demolição desta cultura na
vida do patriarca. Do seu segundo chamado em Aran até a oferta de Isaque no
monte Moriá foram cerca de 45 anos de desconstrução. Teria chegado ao fim? Que
nada.
Essa historia do humanismo
religioso tem outros episódios insinuantes. Logo que o povo de Israel entrou na
terra prometida, uma capa babilônica aparece nos escombros tentando um dos
descendente de Judá com seu estilo das aparências. Acã foi seduzido pelo modelo
esnobe do sobretudo que lhe proporcionava uma boa imagem.
Vemos aqui neste episódio que a
casca parece valer mais do que o cerne. Este "espírito" babélico é o
mundo dos modelitos e das grifes que se preocupam com a fachada. Há um grande
perigo com o julgamento baseado na conduta externa, tanto no que diz respeito
ao orgulho como a falsa humildade. As capas da Babilônia dão status e
as suas togas revelam poder. Por isso, muito cuidado com as fatiotas, elas
escondem perigos.
Vejamos a estratégia dos
gibeonitas, um dos povos que habitavam a terra prometida. Deus havia dito que
todos os povos que moravam em Canaã deveriam ser exterminados. Então, os
habitantes de Gibeão usaram de uma camuflagem para se manterem vivos. (Na boa
hermenêutica, só a morte do velho Adão pode garantir a ressurreição da nova
raça).
Eles se vestiram de roupas velhas
e traziam pães bolorentos e odres gastos para dizer que vinham de um terra
distante e que tudo aquilo era novo quando eles saíram de sua terra, e que
pretendiam fazer uma aliança com Israel. Josué 9.
Com esta estratégia eles se
passaram por estrangeiros distantes e acabaram por fazer uma aliança com
Israel. Josué e os anciãos não consultaram ao Senhor e realizaram um pacto com
eles baseado nas aparências. As roupas gastas, os odres remendados e os pães
embolorados foram as artimanhas da justiça própria para engambelar os tolos.
Quando Josué e os lideres
descobriram a farsa já era tarde. Eles estavam sob a proteção de um juramento,
e o único castigo foi torná-los rachadores de lenha e carregadores de água, mas
isto teve um custo alto. O acordo descabido e a presença dos gibeonitas no meio
do povo de Deus causou consequências sérias. 2 Samuel 21:1-9.
As aparências enganam. A ética
humanista é semelhante à ética cristã na exterioridade, contudo, bem diferente
em sua motivação e natureza. A capa da Babilônia é de faixada, promovida pela
justiça própria e a vanglória. O que conta, neste caso, é a conduta correta e o
estilo garboso, enquanto a ética cristã se fundamenta no amor que procede da
vida de Cristo que se manifesta no coração da nova criatura em humildade e
mansidão.
Olhando de fora os comportamentos
de ambos parecem iguais, mas analisando as intenções vemos uma abismo no meio.
Um é forjado na justiça do homem, todavia, o outro, no amor de Deus. O
humanismo é quase perfeito na ética estética, mas um desastre na ética
intrínseca. O teatro é espetacular. A vida no camarote é um caos.
O odre do judaísmo pós babilônico
é do estômago de bodes e encontra-se seco, duro e ríspido. O odre da igreja é
construído pelas vísceras do Cordeiro de Deus que se renovam cada manhã pelas
misericórdias de Abba. É um recipiente novo e que se expande no
processo dinâmico da história.
Enquanto o velho sistema se
preocupa com o patrimônio terreno, bem como os usos e costumes de uma sociedade
amancebada com o mundo carrasco, a nova comunidade emancipada focaliza-se no
Bem Supremo em favor das pessoas que Deus ama.
A igreja é um povo em
peregrinação rumo à Nova Jerusalém. É uma coletividade viva e evolutiva que se
renova sempre. É um corpo comunitário governado pelo Amor Soberano que
determina as funções de acordo com os dons corporativos distribuído de modo bem
equilibrado pelo Espírito Santo. Romanos 12:3-7.
Quando, no princípio da história
cristã, a igreja ia quebrando a casca do velho odre judaico e construindo o seu
odre particular, ela teve que viver muitos anos nas catacumbas, rompendo o
sufoco do modelo controlador dos judaizantes que nunca se deram por descartados
deste contexto. Essa é uma tiririca persistente, que depois de Teodósio
conseguiu engessar, com toda a armadura babilônica, a leveza da fé cristã.
O cristianismo romano retornou ao
modelo arcaico do judaísmo babilonizado e a igreja foi modelada no esquema do
império decadente. Temos assim um odre velho, hierarquizado, cheio de conchavos
querendo manter o vinho novo em expansão em seu sistema roto e enrijecido. Não
era possível; daí as muitas rebeliões.
A história da igreja mostra
muitas tentativas de grupos conscientes que buscavam a via de libertação e que
foram sufocados como hereges. Mesmo assim, um fogo de monturo sempre queimou
por baixo dos escombros trazendo a esperança de uma nova realidade.
A reforma foi uma estocada
violenta no velho sistema, entretanto, como dizia Dr. Purim, meu ilustre
professor, "nós saímos do catolicismo, mas o catolicismo não saiu de
nós". O sistema protestante ainda traz as vestes sacerdotais dentro de um
clero esclerótico.
Precisamos de luz em nossa
caminhada. Precisamos de uma visão clara do modelo da graça plena. Precisamos
encontrar aquele odre que permita o desenvolvimento alegre com singeleza de
coração em que se manifestem os quatro suportes importantes para a preservação
desse vinho novo. E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na
comunhão, no partir do pão e nas orações. Atos 2:42.

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