"Viu pornografia? Traiu sua esposa? Traiu com os olhares trocados? Mentiu aos seus filhos?"
Existem certas figuras emblemáticas
que nos acompanham durante certas estações da vida. Algumas acabam por tornarem-se
uma fagulha nostálgica de um passado distante. Outras mudam os nossos
paradigmas e fazem-nos mudar de direção; giram nossas bússolas. Nossos pais,
certos professores, o bicho papão, o homem do saco, o coelhinho da páscoa, o Super-man, o papai noel, nossos amigos,
inimigos, padres, pastores, a nossa idéia de Deus, programas televisivos e
ideologias mil.
Recebemos uma
enxurrada de informações que, assim como a mais leve poeira acumula-se sobre a
mobília, vão tomando conta do nosso caráter, consciência e pensamentos. Acabam,
portanto, conduzindo de certo modo o nosso caminhar na vida. Nos alimentamos
delas dia após dia, semana após semana, década depois de década.
Até certo tempo
atrás pensar em um[1]
papai Noel fazia-me vir à mente lembranças agradáveis de uma bela infância.
Brinquedos, roupas e tudo o que uma criança pudera desejar receber. Era sempre
assim: amor da minha família e presentes de um desconhecido chamado de “bom
velhinho”. Um ser que só poderia ser bom, pois estava sempre dentro dos nossos
lares, miniaturalizado em nossas árvores, representado em cartões, nos
guardanapos, nas toalhas de mesa, nos porta guardanapos, nas fachadas, eiras,
janelas, roupas, cuecas, outdoors,
comerciais, revistas, websites,
livros e até músicas são cantadas por todos os cantos fazendo menção ao seu
nome por todo um longo período.
Nunca havia
pensado sobre quem ele era, de onde vinha, o que fazia, por qual motivo deveria
entrar escondido, qual o porquê do vermelho, das renas, do saco, da barba, da
sua longa ausência durante o restante do ano, se era casado, se tinha filhos,
se pagava os anões, se lhes dava férias e se ele de fato tinha um nome.
Chegava o mês de
dezembro e lá estava eu sempre inserido naquele papanoelismo sem fim e sem
contestá-lo assim como um peixe, que não vê a água ao seu entorno; não pensa
sobre ela. Temos muitos conceitos e existem muitas ideias por trás deste senhor
de vermelho. Quando comecei a pensar sobre ele, muitos questionamentos vieram à
mente. Comecei a notar muita semelhança entre o comportamento de um papai noel
com a ideia que muitos tem sobre Deus Pai. Muito mais frequentemente do que
podemos perceber estamos dentro de um contexto extremamente religioso baseado
no mérito assim como estamos no meio do natal e não questionamos toda aquela
euforia.
Vejo igrejas
cristãs aprisionando pessoas utilizando-se do medo como ferramenta de controle.
Vejo pastores, diáconos, supostos cristãos arbitrando a nossa entrada no céu, o
recebimento de bênçãos e maldições baseado no que fazemos ou deixamos de fazer.
Esta religião humanista acaba por retirar Deus do centro e colocar o homem como
a medida de todas as coisas, como se o meu relacionamento com Deus fosse
baseado na minha capacidade de cumprir leis e regulamentos para ir aos céus. Se
assim fosse, por que então foi que Cristo veio? Se fosse possível cumprirmos a
lei mosaica ou doutrinas bíblicas porque Cristo veio morrer a nossa morte e nos
levou a morrer na Cruz?
Quando baseamos o
amor de Deus e a nossa salvação somente nas nossas ações e comportamentos
religiosos estamos querendo anular a Cruz de Cristo e dizer que ele não foi
capaz de perdoar-nos por completo ou que não foi capaz de realizar uma obra perfeita.
Quando ao morrer ele
gritou em alta voz “está consumado!”, eu creio que ele realmente disse para
valer. Religião é o homem buscando a Deus, no entanto o verdadeiro cristão é
aquele que é buscado por Jesus Cristo, que desceu e a si mesmo se esvaziou para
fazer uma obra que nenhum homem poderia ter feito.
A religião nos imputa
a ideia de que o nosso Pai está logo atrás de nós com duas mãos levantadas: uma
esperando você fazer besteira, um pecadinho qualquer. E a outra mão a postos para
apontar e dar a sentença a ser cumprida. Veem um deus vingativo à la papai Noel: um ser
exuberantemente meritocrático que dá presentes somente de acordo com as obras
de cada um.
Um velho palerma
que, na sua obesidade mórbida causada pelos seus exageros, sacia suas próprias
vontades. É claro, pois é ele mesmo aquele que dá a quem merece. E ninguém
melhor do que ele mesmo para merecê-lo.
Um velhaco
hipócrita que abusa de anões, que esquece da sua esposa, e que ri em alta voz
‘’Ho!, Ho!, Ho!’’ no conforto do seu
trenó, enquanto crianças mal educadas pelos seus próprios pais clamam por amor
e creem que logo receberão algo pelo seu próprio esforço anulando, portanto, o
amor.
"Foi um bom menino? Passou de ano? Mentiu pra
mamãe? E para o papai, mentiu? Brigou na escola? E com a irmãzinha, brigou?
Matou alguém? Cometeu estupro? Foi corrupto? Roubou do teu irmão? Sonegou
imposto? Deu um calote? Não deu o dízimo? Não foi a igreja? Orou muito pouco?
Orou errado? Viu pornografia? Traiu sua esposa? Traiu com os olhares trocados?
Mentiu aos seus filhos? Maldisse teu vizinho? Surrou a tua esposa? Tem pregado
o evangelho? Tem se lembrado de mim? Tem me colocado acima de todas as coisas?
E aqueles pensamentos impuros? E esse orgulho todo? Tem sido um falso humilde?
Você tem dependido de si próprio? O que você fez pra agradar-me? Você tem
ajudado os pobres? Doou sangue? Pagou umas cestas básicas? Participou das
reuniões da igreja? Leu a Bíblia? Sonegou impostos novamente? Decorou
versículos? Fez cara de santo? Dormiu demais? Trabalhou de menos? Acusou teu
irmão naquilo que você mesmo cai? Corre sem destino algum? Há em você objetivos
demais? Surtos de prodigalidade? Estourou o cartão? Agradou ao pastor? Satisfez
algum de seus caprichos? Cumpriu o teu papel? Comeu ou bebeu demais? De menos?
E tua família, teus amigos, teu amor e paciência? Onde mora o teu coração: no
bolso ou no peito? Onde está a tua saúde e de onde vem a tua paz? Em quem
repousa a tua confiança? Da onde vem o teu querer: da lei ou do Amor?”.
Esse tipo de
pergunta faz parte da vida de muita gente, começando pela minha. Estamos
imersos em um sistema que nos imputa a criação de um deus que não é gracioso,
misericordioso e muito menos amoroso.
Seja ela cristã ou
não, a religião nos mostra que temos um enorme juiz onipotente,
onipresente e onisciente que muito raramente tem peninha de nós; ele é sádico.
E quando dificilmente piedoso se torna, ele se transforma como num mero paizinho
de aluguel. Ele deixa alguns pecadinhos e transgressões passarem de largo com as
condições de que oremos muito e esfolemos nossos joelhos no milho. Com as
condições de que não ouçamos rock & roll, que jejuemos duas vezes por
semana, compremos mais bíblias e a leiamos de modo contumaz.
Assim não há amor
e não há paternalismo incondicional. Não vemos o Pai amoroso como o pai daquele
desembestado que recebeu tudo de seu pai e nada fez para merecê-lo. Foi aquele
menino esbanjador que exauriu até o último grão da sua herança. Até o que ele queimou
lhe havia sido dado. O que aquele desesperado fez já era previsto; não foi uma
surpresa para o Amor.
Ao retornar,
então, culpado para casa ele se encheu até a boca de justiça própria. Se
autojulgava não-filho querendo se justificar e pagar seus erros com a força dos
seus serviços. Mas o amor do Pai é tosco, cru e violento. Aquele surto de
prodigalidade não o expurgou da condição de filho. Uma vez filho, sempre filho.
Sim, somos filhos do amor, não somos filhos do mérito.
Se hoje somos
masoquistas espirituais é porque achamos que o nosso Pai celeste é um voyeur tarado por um sadomasoquismo
religioso. Nos autoflagelamos através da nossa autopunição para, então,
nos autojustificarmos pela nossa própria capacidade de nos imputar e sentenciar
justiça a nós mesmos perante Deus. Isto nega, portanto, a Cruz de Cristo: a
total justificação gratuita do não-justo; comprada sem dinheiro ou mérito. Amor
a dar com os pés.
Aquele safado e
pernicioso papai Noel é um grande paradigma de um deus de muita gente. Um
deusinho mequetrefe que mora continuamente nas consciências incitando-as a um
arrependimento a fórceps e a uma reprodução deste modelinho muito indelicado.
Há um
arrependimento gerado pelo medo, e não há se quer a sombra do perdão gratuito
na Cruz de Cristo. Um perdão que deve ser recebido; um perdão que já nos foi
dado. Há um perdão que liberta, uma cruz que redime, e um verdadeiro Pai que
manifesta amor e graça em direção à total desgraça.
O modelo “bom
velhinho” é a grande perfídia da bondade! A grande ideologia por de traz desse
vil recompensador encapuzado é terrível. Ele é uma figura paterna bem
consolidada e reconhecida por todos. Somos condicionados desde pequenos a
‘’sermos bonzinhos’’, porque isso nos trará recompensas e presentes que
tanto desejamos.
Na religião isto da
mesma maneira, porém com outros nomes; só isso. Tudo é naturalmente
impulsionado pelas nossas obscuras necessidades que carecem ser saciadas e
embriagadas de exagero fazendo com que sejamos consumidos pelo nosso próprio
consumo e volições.
Neste sistema não
há espaço algum para a gratuidade da graça de Deus, que sabe o que de fato
carecemos. Imagine Deus como papai Noel no juízo final:
-
Foi bom? Só um pouco? Pecou? Sim? Pecou mais do que suas boas obras? [pausa para se calcular o peso das obras]
É... Desculpe-me, mas assim não vai dar. Olhe o que a balança acusa: somente
por “uma ajuda a um idoso a atravessar a rua” você não vai aos céus.
Desse jeito não posso conceder-lhe um perdão completo. Portanto, nada de céu
pra você. Quem sabe na próxima, ok? A gente se vê
na próxima eternidade.
O que é toda esta estupidez senão um bruto e estúpido absurdo!
Há um medo
ecumênico nas igrejas e religiões denominadas cristãs ao se quer imaginar que
Deus tudo vê. A sua onisciência assustou a Jonas e nos assombra também.
Constantemente fugimos no barco da insegurança e da pretensiosa autonomia ao
considerarmos erroneamente que não somos amados de Abba. Guiamos o manche
do medo em direção ao grande peixe e assim somos constantemente abocanhados
pelos sistemas religiosos meritocráticos.
Quando se fala a
respeito do amor do Pai não existem idiossincrasias. Não há formas diversas de
reação. Não há outra resposta ao verdadeiro amor de Cristo senão o completo
constrangimento, como bem disse Paulo. Não há medo no amor, assim como também
não há verdadeiro amor quando há medo, ganância, ou orgulho entremeados em uma
relação.
A Cruz de Cristo é
a manifestação da brutalidade do Amor; da sua loucura e da audácia de Deus a
nosso favor. O Deus que dá a sua vida por sadomasoquistas religiosos e por
miseráveis sem rumo.
O Deus que salva
pela sua infinita graça, mediante a fé para que ninguém se encha de si. Uma
salvação que não depende de boas condutas, mas sim do constrangimento e
recebimento da vida de Cristo em nós. Um Jesus que salva o assassino ao seu lado
no derradeiro tempo de sua existência infrutífera.
Um Jesus que
afirma que todos os que são seus discípulos serão conhecidos se tiverem amor
uns aos outros. Não se mostrarmos nossa castidade, santidade ou piedade. Nunca seremos
conhecidos como seus discípulos através do dízimo, da pregação, da leitura
bíblica, da paciência, do olhar piedoso ou pelo nosso conhecimento da palavra. Mas,
sim, seremos conhecidos somente pelo amor que tivermos uns com os outros. É
Jesus quem nos garante isto. E se temos amor, é porque o recebemos do Papai em
Cristo Jesus.
Diante deste amor obstinado
nós: o que fazer? O que dizer? A quem recorrer?
Por que,
simplesmente, não boiamos de braços abertos no oceano do amor louco de Deus por
nós?
Basta de religião
e chega de acusação.
Por que não nos
deixamos ser amados?
Basta de culpa e
chega de medo.
Por que não retornar
ao Pai, que tem duas mãos: uma para lhe aconchegar em seus braços; a outra para
lhe acariciar o rosto e lhe fazer cafuné? Por que lutamos contra a Graça?
Contra a Benignidade? Contra a beleza de Papai?
Por que ainda insistimos
em lutar contra o Amor?
por Bernardo Pires
Küster.
[1] Utilizei o artigo indefinido masculino singular, pois, apesar de ser
uma "personagem pública" não há um único e singular ser humano que seja "o
papai Noel" por motivos óbvios. O que
existe são muitos homens que representam esta ideia, portanto chamá-lo de único
seria um paradoxo. Logo, quando você vir esta figura no
próximo natal diga: “olhe, um papai
Noel”.

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