segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Papanoelismo [2a edição]



"Viu pornografia? Traiu sua esposa? Traiu com os olhares trocados? Mentiu aos seus filhos?"



Existem certas figuras emblemáticas que nos acompanham durante certas estações da vida. Algumas acabam por tornarem-se uma fagulha nostálgica de um passado distante. Outras mudam os nossos paradigmas e fazem-nos mudar de direção; giram nossas bússolas. Nossos pais, certos professores, o bicho papão, o homem do saco, o coelhinho da páscoa, o Super-man, o papai noel, nossos amigos, inimigos, padres, pastores, a nossa idéia de Deus, programas televisivos e ideologias mil.
Recebemos uma enxurrada de informações que, assim como a mais leve poeira acumula-se sobre a mobília, vão tomando conta do nosso caráter, consciência e pensamentos. Acabam, portanto, conduzindo de certo modo o nosso caminhar na vida. Nos alimentamos delas dia após dia, semana após semana, década depois de década.
Até certo tempo atrás pensar em um[1] papai Noel fazia-me vir à mente lembranças agradáveis de uma bela infância. Brinquedos, roupas e tudo o que uma criança pudera desejar receber. Era sempre assim: amor da minha família e presentes de um desconhecido chamado de “bom velhinho”. Um ser que só poderia ser bom, pois estava sempre dentro dos nossos lares, miniaturalizado em nossas árvores, representado em cartões, nos guardanapos, nas toalhas de mesa, nos porta guardanapos, nas fachadas, eiras, janelas, roupas, cuecas, outdoors, comerciais, revistas, websites, livros e até músicas são cantadas por todos os cantos fazendo menção ao seu nome por todo um longo período.
Nunca havia pensado sobre quem ele era, de onde vinha, o que fazia, por qual motivo deveria entrar escondido, qual o porquê do vermelho, das renas, do saco, da barba, da sua longa ausência durante o restante do ano, se era casado, se tinha filhos, se pagava os anões, se lhes dava férias e se ele de fato tinha um nome.
Chegava o mês de dezembro e lá estava eu sempre inserido naquele papanoelismo sem fim e sem contestá-lo assim como um peixe, que não vê a água ao seu entorno; não pensa sobre ela. Temos muitos conceitos e existem muitas ideias por trás deste senhor de vermelho. Quando comecei a pensar sobre ele, muitos questionamentos vieram à mente. Comecei a notar muita semelhança entre o comportamento de um papai noel com a ideia que muitos tem sobre Deus Pai. Muito mais frequentemente do que podemos perceber estamos dentro de um contexto extremamente religioso baseado no mérito assim como estamos no meio do natal e não questionamos toda aquela euforia.
Vejo igrejas cristãs aprisionando pessoas utilizando-se do medo como ferramenta de controle. Vejo pastores, diáconos, supostos cristãos arbitrando a nossa entrada no céu, o recebimento de bênçãos e maldições baseado no que fazemos ou deixamos de fazer. Esta religião humanista acaba por retirar Deus do centro e colocar o homem como a medida de todas as coisas, como se o meu relacionamento com Deus fosse baseado na minha capacidade de cumprir leis e regulamentos para ir aos céus. Se assim fosse, por que então foi que Cristo veio? Se fosse possível cumprirmos a lei mosaica ou doutrinas bíblicas porque Cristo veio morrer a nossa morte e nos levou a morrer na Cruz?
Quando baseamos o amor de Deus e a nossa salvação somente nas nossas ações e comportamentos religiosos estamos querendo anular a Cruz de Cristo e dizer que ele não foi capaz de perdoar-nos por completo ou que não foi capaz de realizar uma obra perfeita.
Quando ao morrer ele gritou em alta voz “está consumado!”, eu creio que ele realmente disse para valer. Religião é o homem buscando a Deus, no entanto o verdadeiro cristão é aquele que é buscado por Jesus Cristo, que desceu e a si mesmo se esvaziou para fazer uma obra que nenhum homem poderia ter feito.
A religião nos imputa a ideia de que o nosso Pai está logo atrás de nós com duas mãos levantadas: uma esperando você fazer besteira, um pecadinho qualquer. E a outra mão a postos para apontar e dar a sentença a ser cumprida. Veem um deus vingativo à la papai Noel: um ser exuberantemente meritocrático que dá presentes somente de acordo com as obras de cada um.
Um velho palerma que, na sua obesidade mórbida causada pelos seus exageros, sacia suas próprias vontades. É claro, pois é ele mesmo aquele que dá a quem merece. E ninguém melhor do que ele mesmo para merecê-lo.
Um velhaco hipócrita que abusa de anões, que esquece da sua esposa, e que ri em alta voz ‘’Ho!, Ho!, Ho!’’ no conforto do seu trenó, enquanto crianças mal educadas pelos seus próprios pais clamam por amor e creem que logo receberão algo pelo seu próprio esforço anulando, portanto, o amor.
Veem um deus religioso, sarcástico e pobre em misericórdia que nos perguntaria:
"Foi um bom menino? Passou de ano? Mentiu pra mamãe? E para o papai, mentiu? Brigou na escola? E com a irmãzinha, brigou? Matou alguém? Cometeu estupro? Foi corrupto? Roubou do teu irmão? Sonegou imposto? Deu um calote? Não deu o dízimo? Não foi a igreja? Orou muito pouco? Orou errado? Viu pornografia? Traiu sua esposa? Traiu com os olhares trocados? Mentiu aos seus filhos? Maldisse teu vizinho? Surrou a tua esposa? Tem pregado o evangelho? Tem se lembrado de mim? Tem me colocado acima de todas as coisas? E aqueles pensamentos impuros? E esse orgulho todo? Tem sido um falso humilde? Você tem dependido de si próprio? O que você fez pra agradar-me? Você tem ajudado os pobres? Doou sangue? Pagou umas cestas básicas? Participou das reuniões da igreja? Leu a Bíblia? Sonegou impostos novamente? Decorou versículos? Fez cara de santo? Dormiu demais? Trabalhou de menos? Acusou teu irmão naquilo que você mesmo cai? Corre sem destino algum? Há em você objetivos demais? Surtos de prodigalidade? Estourou o cartão? Agradou ao pastor? Satisfez algum de seus caprichos? Cumpriu o teu papel? Comeu ou bebeu demais? De menos? E tua família, teus amigos, teu amor e paciência? Onde mora o teu coração: no bolso ou no peito? Onde está a tua saúde e de onde vem a tua paz? Em quem repousa a tua confiança? Da onde vem o teu querer: da lei ou do Amor?”.
Esse tipo de pergunta faz parte da vida de muita gente, começando pela minha. Estamos imersos em um sistema que nos imputa a criação de um deus que não é gracioso, misericordioso e muito menos amoroso.
Seja ela cristã ou não, a religião nos mostra que temos um enorme juiz onipotente, onipresente e onisciente que muito raramente tem peninha de nós; ele é sádico. E quando dificilmente piedoso se torna, ele se transforma como num mero paizinho de aluguel. Ele deixa alguns pecadinhos e transgressões passarem de largo com as condições de que oremos muito e esfolemos nossos joelhos no milho. Com as condições de que não ouçamos rock & roll, que jejuemos duas vezes por semana, compremos mais bíblias e a leiamos de modo contumaz.
Assim não há amor e não há paternalismo incondicional. Não vemos o Pai amoroso como o pai daquele desembestado que recebeu tudo de seu pai e nada fez para merecê-lo. Foi aquele menino esbanjador que exauriu até o último grão da sua herança. Até o que ele queimou lhe havia sido dado. O que aquele desesperado fez já era previsto; não foi uma surpresa para o Amor.
Ao retornar, então, culpado para casa ele se encheu até a boca de justiça própria. Se autojulgava não-filho querendo se justificar e pagar seus erros com a força dos seus serviços. Mas o amor do Pai é tosco, cru e violento. Aquele surto de prodigalidade não o expurgou da condição de filho. Uma vez filho, sempre filho. Sim, somos filhos do amor, não somos filhos do mérito.
Se hoje somos masoquistas espirituais é porque achamos que o nosso Pai celeste é um voyeur tarado por um sadomasoquismo religioso. Nos autoflagelamos através da nossa autopunição para, então, nos autojustificarmos pela nossa própria capacidade de nos imputar e sentenciar justiça a nós mesmos perante Deus. Isto nega, portanto, a Cruz de Cristo: a total justificação gratuita do não-justo; comprada sem dinheiro ou mérito. Amor a dar com os pés. 
Aquele safado e pernicioso papai Noel é um grande paradigma de um deus de muita gente. Um deusinho mequetrefe que mora continuamente nas consciências incitando-as a um arrependimento a fórceps e a uma reprodução deste modelinho muito indelicado.
Há um arrependimento gerado pelo medo, e não há se quer a sombra do perdão gratuito na Cruz de Cristo. Um perdão que deve ser recebido; um perdão que já nos foi dado. Há um perdão que liberta, uma cruz que redime, e um verdadeiro Pai que manifesta amor e graça em direção à total desgraça.
O modelo “bom velhinho” é a grande perfídia da bondade! A grande ideologia por de traz desse vil recompensador encapuzado é terrível. Ele é uma figura paterna bem consolidada e reconhecida por todos. Somos condicionados desde pequenos a ‘’sermos bonzinhos’’, porque isso nos trará recompensas e presentes que tanto desejamos.
Na religião isto da mesma maneira, porém com outros nomes; só isso. Tudo é naturalmente impulsionado pelas nossas obscuras necessidades que carecem ser saciadas e embriagadas de exagero fazendo com que sejamos consumidos pelo nosso próprio consumo e volições. 
Neste sistema não há espaço algum para a gratuidade da graça de Deus, que sabe o que de fato carecemos. Imagine Deus como papai Noel no juízo final:
         - Foi bom? Só um pouco? Pecou? Sim? Pecou mais do que suas boas obras? [pausa para se calcular o peso das obras] É... Desculpe-me, mas assim não vai dar. Olhe o que a balança acusa: somente por “uma ajuda a um idoso a atravessar a rua” você não vai aos céus. Desse jeito não posso conceder-lhe um perdão completo. Portanto, nada de céu pra você. Quem sabe na próxima, ok? A gente se vê na próxima eternidade.
            O que é toda esta estupidez senão um bruto e estúpido absurdo!
Há um medo ecumênico nas igrejas e religiões denominadas cristãs ao se quer imaginar que Deus tudo vê. A sua onisciência assustou a Jonas e nos assombra também. Constantemente fugimos no barco da insegurança e da pretensiosa autonomia ao considerarmos erroneamente que não somos amados de Abba. Guiamos o manche do medo em direção ao grande peixe e assim somos constantemente abocanhados pelos sistemas religiosos meritocráticos.
Quando se fala a respeito do amor do Pai não existem idiossincrasias. Não há formas diversas de reação. Não há outra resposta ao verdadeiro amor de Cristo senão o completo constrangimento, como bem disse Paulo. Não há medo no amor, assim como também não há verdadeiro amor quando há medo, ganância, ou orgulho entremeados em uma relação.
A Cruz de Cristo é a manifestação da brutalidade do Amor; da sua loucura e da audácia de Deus a nosso favor. O Deus que dá a sua vida por sadomasoquistas religiosos e por miseráveis sem rumo.
O Deus que salva pela sua infinita graça, mediante a fé para que ninguém se encha de si. Uma salvação que não depende de boas condutas, mas sim do constrangimento e recebimento da vida de Cristo em nós. Um Jesus que salva o assassino ao seu lado no derradeiro tempo de sua existência infrutífera.
Um Jesus que afirma que todos os que são seus discípulos serão conhecidos se tiverem amor uns aos outros. Não se mostrarmos nossa castidade, santidade ou piedade. Nunca seremos conhecidos como seus discípulos através do dízimo, da pregação, da leitura bíblica, da paciência, do olhar piedoso ou pelo nosso conhecimento da palavra. Mas, sim, seremos conhecidos somente pelo amor que tivermos uns com os outros. É Jesus quem nos garante isto. E se temos amor, é porque o recebemos do Papai em Cristo Jesus.
Diante deste amor obstinado nós: o que fazer? O que dizer? A quem recorrer?
Por que, simplesmente, não boiamos de braços abertos no oceano do amor louco de Deus por nós?
Basta de religião e chega de acusação.
Por que não nos deixamos ser amados?
Basta de culpa e chega de medo.
Por que não retornar ao Pai, que tem duas mãos: uma para lhe aconchegar em seus braços; a outra para lhe acariciar o rosto e lhe fazer cafuné? Por que lutamos contra a Graça? Contra a Benignidade? Contra a beleza de Papai?
Por que ainda insistimos em lutar contra o Amor?
por Bernardo Pires Küster.



[1] Utilizei o artigo indefinido masculino singular, pois, apesar de ser uma "personagem pública" não há um único e singular ser humano que seja "o papai Noel" por motivos óbvios. O que existe são muitos homens que representam esta ideia, portanto chamá-lo de único seria um paradoxo. Logo, quando você vir esta figura no próximo natal diga: “olhe, um papai Noel”.   

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