terça-feira, 17 de julho de 2012

O Papanoelismo

A religião nos imputa a ideia de que o nosso Pai está logo atrás de nós com a mão levantada esperando você fazer besteira, um pecadinho qualquer, e a outra mão para apontar para você e dar-te a sentença a ser cumprida. Veem um deus vingativo à la papai Noel: um ser exuberantemente meritocrático que dá presentes de acordo com as obras de cada um. Um velho estupidificado que na sua obesidade mórbida causada pelos seus excessivos exageros sacia suas próprias vontades, pois ele mesmo é aquele que dá a quem merece. E ninguém melhor do que ele para merecê-lo. Um velhaco hipócrita que abusa de anões, que esquece sua esposa, e ri em alta voz ‘’Ho!, Ho!, Ho!’’ no conforto do seu carrinho, enquanto crianças mal educadas pelos seus próprios pais clamam por amor e creem que logo receberão algo pelo seu próprio esforço, anulando, portanto o amor. Veem um deus religioso, sarcástico e pobre em misericórdia que nos perguntaria:


"Você foi um bom menino? Passou de ano? Mentiu pra mamãe? E para o papai, mentiu? Brigou na escola? E com a irmãzinha, brigou? Matou alguém? Cometeu estupro? Foi corrupto? Roubou do teu irmão? Sonegou imposto? Deu o calote? Não deu o dízimo? Não foi a igreja? Orou muito pouco? Orou errado? Viu pornografia? Traiu sua esposa? Traiu com os olhares trocados? Mentiu aos seus filhos? Maldisse teu vizinho? Surrou a tua esposa? Tem pregado o evangelho? Tem se lembrado de mim? Tem me colocado acima de todas as coisas? E aqueles pensamentos impuros? E esse orgulho todo? Tem sido um falso humilde? Você tem dependido de si próprio? O que você fez pra agradar-me? Você tem ajudado os pobres? Doou sangue? Pagou umas cestas básicas? Participou das reuniões da igreja? Leu a Bíblia? Sonegou impostos? Decorou versículos? Fez cara de santo? Dormiu demais? Trabalhou de menos? Acusou teu irmão naquilo que você mesmo cai? Corre sem destino algum? Tem objetivos demais? Tem surtos de prodigalidade? Estourou o cartão? Agradou ao pastor? Cumpriu teu papel? Comeu ou bebeu demais? De menos? E tua família, teus amigos, teu amor e paciência? Onde mora o teu coração: no bolso ou no peito? Onde está a tua saúde e de onde vem a tua paz?”.


    Esse tipo de pergunta faz parte da vida de muita gente, começando pela minha. Estamos imersos em um sistema que nos imputa a criação de um deus que não é gracioso, misericordioso e muito menos amoroso. Seja ela cristã ou não, a religião nos mostra que temos um enorme juiz onipotente, onipresente e onisciente que muito raramente tem peninha de nós; ele é sádico. E quando dificilmente piedoso se torna, ele se transforma como num pai de aluguel, que deixa alguns pecados e transgressões passar de largo à sua vista com as condições de que oremos muito e esfolemos nossos joelhos no milho. Com a condição de que não ouçamos rock, que jejuemos, compremos bíblias e a leiamos mais.


   Somos masoquistas espirituais e achamos que o nosso Pai celeste é um voyeur tarado por um sodomismo religioso.

     Aquele safado e pernicioso papai Noel é um grande paradigma dos séculos XX e XXI de um deus de muita gente. Um deusinho mequetrefe que mora continuamente nas consciências incitando-as a um arrependimento a fórceps e a uma reprodução deste modelinho também muito pernicioso. Há um arrependimento gerado pelo medo, e não há se quer a sombra do perdão gratuito na Cruz de Cristo. Um perdão que pode ao máximo ser recebido, não aceito, pois já foi dado. O modelo “bom velhinho” é a grande perfídia da bondade! A grande ideologia por de traz desse vil recompensador encapuzado é terrível. 


        Ele é uma figura paterna bem consolidada e reconhecida para todos e somos condicionados desde pequenos a ‘’sermos bonzinhos’’, porque isso nos trará recompensas e presentes que desejamos. Tudo é naturalmente impulsionado pelas nossas obscuras necessidades que, a nosso ver, carecem ser saciadas e embriagadas de exagero até que sejamos consumidos pelo nosso próprio consumo. 

Neste sistema não há espaço algum para a gratuidade da graça de Deus, que sabe o que de fato carecemos. Imagine Deus como papai Noel no juízo final:

         - Foi bom? Só um pouco? Não? Pecou? Sim? Pecou mais do que suas boas obras? [pausa para calcular o peso das obras] Ish... Desculpe-me, mas assim não vai dar. Olhe aqui na balança. Somente por uma ajuda a um idoso a atravessar a rua você não vai aos céus. Desse jeito não posso conceder-lhe um perdão completo. Portanto, nada de céu pra você. Quem sabe na próxima, ok? A gente se vê na próxima eternidade.

            O que é toda esta estupidez senão um bruto e estúpido absurdo!

Há um medo ecumênico nas igrejas e religiões denominadas cristãs ao se quer imaginar que Deus tudo vê. A sua onisciência assustou a Jonas e nos assombra também. Constantemente fugimos no barco da insegurança ao considerarmos que não somos amados de Abba. Guiamos o manche do medo em direção ao grande peixe e assim somos constantemente abocanhados pelos sistemas religiosos meritocrático, sendo este último um grande pleonasmo.


     Quando se fala a respeito do amor do Pai não existem idiossincrasias. Não há formas diversas de reação. Não há outra resposta ao verdadeiro amor de Cristo senão o completo constrangimento, como disse Paulo. Não há medo no amor, assim como também não há verdadeiro amor quando há medo, ganância, ou orgulho entremeados em uma relação.

A Cruz de Cristo é a manifestação da brutalidade do Amor; da sua loucura e da audácia de Deus a nosso favor. Diante deste amor marroaz: o que fazer? O que dizer? A quem recorrer?

Por que, simplesmente, não nos repousamos de braços abertos no oceano do amor louco de Deus por nós?

por Bernardo Pires Küster.

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