Por: Alexandre Chaves
“Mas se é pela graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a
graça já não é mais graça.” Romanos 11:6
Nada é mais essencial, fundamental e inegociável para a fé em
Jesus Cristo e em seu evangelho do que a graça. Tipificando, a graça é como uma
das pernas de Deus que se alterna com a outra chamada misericórdia, em todo
movimento de Deus em nossa direção. Antes de prosseguirmos em nossa reflexão,
entendemos ser importante uma definição de graça.
O sentido desta palavra tem se desgastado ao longo dos anos e,
atualmente, é difícil encontrar pessoas que entendam o verdadeiro significado da
palavra graça. Isto não quer dizer que a tenham omitido dos jargões corriqueiros
da cristandade, pois continua fazendo parte do linguajar cristão. Mas, mesmo com
a fala aparentemente correta, é comum verificar sua utilização para representar
o oposto de seu significado original, como por exemplo, a expressão “estou
pagando por uma graça recebida”.
Poucas coisas podem ser tão confusas como a expressão acima.
Outra sentença que suscita certa confusão é “graça barata”.Dietrich
Bonhoeffer popularizou esta expressão. É indiscutível o caráter e a contribuição
de Bonhoeffer para igreja e para o povo alemão durante a segunda guerra mundial.
E fica clara a sua intenção ao utilizá-la; a de combater aqueles que usavam do
conceito de graça, como um meio para viver uma vida mergulhada, acostumada e
conformada com o pecado de viver para si.
O problema surge quando a expressão “graça barata”
suscita uma impossibilidade em atribuir valor no que se refere à graça de Deus.
Alem de carregar em si uma incoerência lógica, pois, se é graça, não tem custo e
se é barata já não é graça, ainda que o custo seja baixo.
Ao contrario do que muitas pessoas pensam, a graça representa a
extrema valorização da obra de Deus consumada em Cristo a nosso favor, algo que
é imensurável em valor. O que o Pai fez em Cristo Jesus, não pode ser obtido por
preço, tendo em vista a grandeza de sua preciosidade. Nunca poderia ser
desfrutado por nenhum de nós, a não ser que nos fosse concedido por graça.
Para algo imensurável em valor, qualquer tentativa de por
preço, se constitui na mais alta afronta, além de representar a desvalorização
do inestimável. No caso em questão, por ser de dimensões infinitas e eternas,
como é a graça de Deus, o ato de valorar se constitui também num ato de
desvalorização de proporções infinitas e eternas. Quanto mais tentamos comprar o
favor de Deus, mais exposta fica a nossa ignorância a respeito do evangelho da
graça.
Sendo assim, alguém arriscaria por um preço na vida daquele que
criou e sustenta todo o Universo pelo poder de sua palavra? Quanto você tem em
caixa para recompensar o Deus Criador do céus e da terra pela obra de oferecer a
vida de seu filho como sacrifício na cruz do Calvário, com o objetivo gracioso
de fazê-lo uma nova criatura, um filho e herdeiro dEele?
Ou quais são as habilidades e qualidades inerentes a você, ou
seja, que fazem parte de sua essência, qualidades estas que não tenha recebido
ninguém, mas como um ser pseudo- eterno e auto-divinizado, só exista em você?
Que possa de alguma maneira, representar uma novidade para Deus, a ponto de
suscitar nEle sua cobiça, revelando toda a carência de um Deus, que diante das
posses e qualidades de um presunçoso ser humano, não tenha outra alternativa a
não ser, lhe propor uma troca, uma barganha?
Em sua relação com o homem, Deus, não tem como existir, ser e
fazer nada, a não ser movido por seu amor, sustentado por sua graça e
misericórdia. Talvez, seja justamente por sua fundamentalidade inegociável, no
que se refere à verdade do evangelho, que ela, a graça, tenha sido tão atacada
no curso da história.
Esta atitude, de querer recompensar Deus, faz parte de uma
filosofia satânica do mundo que quer fazer o homem igual a Deus, e Deus um
mentiroso, mantendo a proposta da serpente no Éden. Além de ser contrario à
glória de Deus, intenta, através de sutilezas, tirar a glória de Deus que se dá,
para colocá-la no homem, exaltando sua capacidade de adquirir. Porem, não
conseguem responder a pergunta de Deus. “Quem primeiro me deu a mim para que
Eu possa restituí-lo?” Jó 41:11ª .Em resumo, a ação de Deus em nosso favor
não nos custa nada, e se custasse, jamais poderíamos pagar.
Hoje a graça, bem como aqueles que vivem em sua dimensão e seus
pregadores, encontram-se no banco dos réus. Estes frequentemente são contados
entre os hereges. Mas isto não é de agora. Desde a encarnação da Graça entre
nós, aquele que foi chamado de: a graça, a verdade, o caminho, a vida, ou seja,
Jesus Cristo o filho de Deus, a história se repete. “Pois a lei veio por
intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo”João
1:17 “...Eu sou o caminho, a verdade e a vida...”João 14:6ª
Na história da igreja, muitos irmãos morreram ou sofreram
perseguições por terem seus nomes associados a esta “criminosa” de alta
periculosidade, chamada Graça. Vários personagens conhecidos como, o apóstolo
Paulo, santo Agostinho, Lutero e outros, além de incontáveis anônimos da graça,
foram perseguidos e muitos perderam suas vidas por anunciar a boa nova de
Deus. “... o Deus de toda graça, que em Cristo Jesus vos chamou a sua glória
eterna...” 1Pedro 5:10ª .
Mas qual é a acusação que pesa sobre a graça? Em primeiro
lugar, a graça é acusada de subversiva, pois pode representar um ato de extremo
amor por parte de Deus em relação ao homem, lançando fora todo o sentimento de
medo do homem em relação a Deus. Algo que inviabilizaria a sua obediência a
Deus, que no mundo religioso é sustentada pelo medo, mas não é assim no reino de
Deus. “E nós conhecemos, e cremos no amor que Deus tem por nós. Deus é amor.
Quem está em amor está em Deus, e Deus nele.” “No amor não há medo. Antes o
perfeito amor lança fora o medo, porque o medo produz tormento. Aquele que teme
não é aperfeiçoado em amor.” 1 João 4: 16 e 18
Acaso tem sentido uma obediência produzida pelo medo? Ou ainda,
seria isto obediência de fato? Só em Nárnia congelada; só num mundo que jaz no
maligno. Se o evangelho de Deus fosse nestes termos, não representaria nenhuma
novidade. Desde que o mundo é mundo, o forte impõe a subordinação e a obediência
aos mais fracos pela ameaça que produz o medo. Sendo assim, a mensagem de Deus
não poderia ser considerada boa, e muito menos nova, portanto, não poderia ser
chamada de evangelho.
No reino de Deus a vida é diferente. No reino do Filho do seu
amor, os filhos de Abba, sustentados pela graça, querem obedecer porque amam a
seu Pai, porque tiveram suas consciências iluminadas pelo evangelho, a palavra
de Deus. Querem obedecer porque morreram para o império do medo e do pecado em
Cristo Jesus. “Sabendo isto, que foi crucificado com Cristo o nosso velho
homem, para que o corpo do pecado seja destruído, a fim de não servirmos mais ao
pecado como escravos” Romanos 6:6
Querem obedecer, porque nasceram de novo para o reino do amor.
“Portanto se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já
passaram tudo se fez novo.” 2Corintios 5:17 .Ainda que muitas vezes não
consigam, devido a sua condição humana. “Pois não faço o bem que quero, mas o
mal que não quero, esse faço.”Romanos 7:19. E que apesar de sua condição de
fraqueza, andam por fé, não se utilizando a graça pára pecar. “Que diremos,
pois? Permaneceremos no pecado para que a graça aumente? Romanos 6:1. A
resposta é “De modo nenhum.”Romanos 6:2ª.
O que percebemos na revelação de Deus em Cristo, é que não
existe significado em nenhuma ação, que não seja fruto do amor, ainda que seja
um ato de aparente obediência. “E ainda que distribuísse toda a minha fortuna
para o sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser
queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.” 1Coríntios 13:3
Cristo foi levado aos tribunais porque era a graça entre os
homens, porque se dizia o filho de Deus, fazendo-se igual a Deus. E na revelação
de Deus expressa em Cristo Jesus, o Deus apresentado era o Deus de toda a graça.
Algo intolerável para o sistema religioso do mundo, que não admite de forma
alguma um Deus gracioso, no sentido exato do termo. “Vendo-o os principais
sacerdotes e seus guardas, gritaram: Crucifica-o! Crucifica-o!” João
19:6a
O recado foi dado, por parte do sistema religioso do mundo,
tendo Jesus Cristo o Nazareno como exemplo. Qualquer um que se atrever, no mundo
dos homens, cegados pelo príncipe deste século, a tomar para si a prerrogativa
de deus, e que se manifestar em graça e em verdade, será levado aos tribunais,
será crucificado e morto, ainda que seja Deus de fato.
É intolerável para o mundo, com seus valores e qualidades,
aceitar tal afronta: um Deus incapaz de tratar com distinção os melhores,
desqualificando assim seus méritos. Que trata com dignidade samaritanos,
adúlteras, publicanos pecadores e leprosos. Que olha com amor para um ladrão,
réu confesso, concedendo-lhe o paraíso. E que ainda diz : “Eu não vim chamar
justos, e sim, pecadores ao arrependimento.” Lucas 5:32. É digno de morte
tal Deus, bem como seus seguidores e profetas. Alexandre Chaves

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