Por: Alexandre Chaves
Não se põe vinho novo em odres velhos; do
contrário, rompem-se os odres, e entorna-se o vinho, e os odres estragam-se; mas
deita-se vinho novo em odres novos, e assim ambos se conservam. Mateus
9:17
O cristianismo tem tomado um caminho, que nem mesmo os próprios
cristãos sabem ao certo para onde estão sendo levados. Isto significa dizer que
o cristianismo está embaraçado em suas vertentes confusas, sem rumo, perdido e,
portanto, precisando de salvação. O pensamento relativista pós-moderno, em sua
tendência sincretizante, tem determinado o apagamento das referências. Este modo
de pensar tomou conta do caminhar da maioria dos que se dizem cristãos. A antiga
afirmação segundo a qual “Todos os caminhos levavam a Roma” foi hoje substituída
pela frase, “Todos os caminhos levam a Deus” e, o pensamento subjacente em
ambas, parece ter tomado conta do cristianismo moderno.
Na verdade, podemos dizer que, esse tipo de cristianismo - por
suas práticas, rebaixado ao nível de uma religião qualquer - já nasceu morto no
que se refere ao significado dele para Deus. A Bíblia sagrada nos ensina na
carta que o apostolo Paulo escreve aos irmãos da Galácia que, em Cristo, a
circuncisão - como expressão de assertividade em relação à conduta religiosa, ou
a incircuncisão, que aparece aqui como negativa da conduta religiosa padrão -
não têm valor algum para Deus. “Pois, nem a circuncisão é coisa alguma, nem a
incircuncisão, mas o ser nova criatura” (Gálatas 6:15). Isso também evidencia
que, o que realmente importa para Deus, não é se temos uma religião ou não, mas
sim, a fé que realiza, se manifesta e opera em nossas vidas, com uma única
motivação: o amor (Gálatas 5:6).
Sei que muitas pessoas podem se sentir ofendidas com estas
afirmações. Por isso, gostaria de ressaltar que elas não são minhas - são
conclusões trazidas pela Bíblia sagrada. Talvez isto não signifique muita coisa
pra você, especialmente se você for apenas um cristão no sentido religioso, pois
como dissemos acima, o cristianismo moderno perdeu sua referência em Cristo e em
sua palavra, a qual tem como leito hermenêutico o Deus revelado em Cristo, que
se identifica como um Pai que é Amor.
Por isso, temos visto com horror as escrituras sendo
manipuladas de maneira descontextualizada, tendo como objetivo extrair delas só
o que é de interesse e proveito pessoal. Soren Kierkegaard chamou a isto de
erudição cristã dizendo: “Aqui jaz o verdadeiro lugar da erudição cristã. A
erudição cristã é a prodigiosa invenção da igreja para defende-se da Bíblia;
para assegurar que continuemos sendo bons cristãos sem que a Bíblia chegue perto
demais de nós.”
O ensinamento de que a religião não tem valor algum para Deus,
é arejado e vivificado pelo Espírito de Cristo. Isto fica evidente pela maneira
como Ele viveu e ensinou. Jesus desdenhava da religião. Podemos constatar este
fato quando foi posto diante Dele um homem dependurado por uma corda, um
aleijado desesperado por cura, e Ele fazendo-se de desentendido, oferece-lhe
perdão para seus pecados, com o simples objetivo de conduzir sua plateia de
religiosos previsíveis, para a beira do ridículo, pois Ele sabia que ficariam
furiosos por esta afirmação. O questionamento seguinte os expõe ainda mais.
Qual é mais fácil? dizer: Os teus pecados te são perdoados; ou dizer:
Levanta-te, e anda? Lucas 5:23.
Diante da evidência da vida e do pecador perdoado, curado e, em
pé diante deles, a única coisa que restou foi a frustração e o desapontamento
daqueles religiosos. Diante do evangelho fica exposta a estupidez e a
inutilidade da religião, como um fim em si mesma. Em nenhum momento vemos em
Cristo, tal como descrito no Novo Testamento, o desejo de fundar uma religião.
Pelo contrario, o que percebemos em Cristo é uma atitude critica, contra o
sistema religioso de seu tempo e, um olhar de amor, de graça, de misericórdia e
compaixão por todos aqueles que eram excluídos pela religião.
Quando levamos a sério o discipulado de Cristo, e com
honestidade nos dispomos a aprender Dele, chegamos à seguinte conclusão: Cristo
é a pedra fundamental de uma nova ordem, de uma nova aliança, sustentada pelo
seu sacrifício na cruz e em Seu sangue vertido nela. Esta nova realidade, ao
mesmo tempo em que inaugura o Reino de Deus, põe um fim a todo sistema religioso
pautado pelo principio da justiça retributiva, estabelecendo a era da vida e da
graça, anunciando o ano aceitável do Senhor.Lucas 4:19.
O que o filho de Deus precisa é ter a consciência iluminada
para saber que, nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem valor para Deus. E
que o discipulado cristão ou, o seguir a Cristo transcende toda e qualquer
formalidade religiosa como bem ressalta Jose Comblim: “O caminho de Jesus se
vive no contexto de uma religião, mas é superior a ela, e permanece crítico com
relação a todas as religiões. Jesus criticou radicalmente a religião do seu
povo, e os cristãos também devem criticar a religião – em primeiro lugar a sua,
porque esta sempre tende a se afastar do caminho de Jesus e se tornar autônoma,
dando satisfação aos desejos religiosos dos povos, mas sem referência ao reino
de Deus.”
Temos que, com clareza, estar convictos de que nossa identidade
está em Cristo, e não em nossas denominações religiosas, e nem mesmo na pseudo
falta delas. Mas a questão que surge é esta: como aquilo que começou de maneira
simples, libertadora e bela, tornou-se este emaranhado de complexidades e
confusões?
O problema começa, primeiramente, como uma necessidade humana
institucional, pois não temos a condição de expressar nossa fé comunitária sem
nos institucionalizarmos. E, onde existe local definido, horários definidos,
funções definidas, ai existe uma instituição. O problema não é a instituição, o
problema é quando nossa identidade deixa de estar em Cristo para estar na
instituição. Neste caso, a instituição deixa de ser vassala do reino de Deus,
para ser senhora da vida das pessoas; deixa de ser meio e instrumento, para ser
razão e fim.
Em segundo lugar, outra questão que favorece essa distorção, é
a tentativa desesperada do velho homem de não aceitar seu fim na cruz. Existem
aqueles que querem se apossar do Reino de Deus pela força ou, melhor dizendo,
pelo esforço (Mateus 11:12), porque isto traz a conotação de mérito e
auto-afirmação pessoal, na medida em que satisfazemos as exigências de nossa
religião.
Entretanto, no reino de Deus você precisa ser nada, para que
Cristo seja seu tudo. Na instituição você pode ser alguém, e isto é tudo o que o
velho homem quer - ser alguém. Ser um diretor, ser pastor, presidente, diácono.
Mas, a igreja de Cristo - que é o Seu corpo e que transcende toda realidade
institucional - é formada por crucificados e ressurretos em Cristo. Estes nada
mais possuem, a não ser o próprio Cristo Jesus como seu tudo, sempre ouvindo a
voz do seu Senhor dizendo: Se alguém quer ser meu discípulo, a si mesmo se
negue, dia a dia tome sua cruz e siga-me. Lucas 9:23. O reino de Deus é para
Zé ninguém.
Em terceiro lugar - e é aqui que eu quero me deter um pouco
mais - encontra-se a impossibilidade de se compreender a boa-nova a partir de
uma mentalidade velha. Para demonstrar esta realidade, gostaria de contrapor
dois personagens bíblicos. O primeiro, de grande importância. O segundo, de suma
importância. Trata-se de João Batista, um profeta, e de nosso Senhor e Salvador
Jesus Cristo, o filho de Deus.
No capitulo três do evangelho de Mateus, a figura de João
aparece em destaque. Neste capitulo podemos perceber como era o seu ministério,
onde ele atuava, qual era a tônica de sua pregação, como ele se vestia e se
dirigia aos religiosos com tal dureza que beirava à raiva. Vendo ele, porém,
que muitos fariseus e saduceus vinham ao batismo, disse-lhes:Raça de víboras,
quem vos ensinou a fugir da ira vindoura? Mateus 3:7.
Fica evidente que João manifestava um rompimento com o sistema
religioso de sua época, representado pelo templo e pelo sinédrio. Ele não
exercia função no templo, mesmo tendo todo direito para isto. Seu local de
atuação ministerial era o deserto. Seu discurso era duro contra as injustiças e
à falta de realidade existencial e, contra a farsa que havia se tornado o
sistema religioso.
João também se manifestava contra as políticas eclesiásticas,
contra a verdade que se torna uma mentira pronunciada, quando não temos o
respaldo da vida, e fazemos da verdade peso pra os outros, como também denunciou
Jesus. Então falou Jesus à multidão, e aos seus discípulos, Dizendo: Na
cadeira de Moisés estão assentados os escribas e fariseus. Todas as coisas,
pois, que vos disserem que observeis, observai-as e fazei-as; mas não procedais
em conformidade com as suas obras, porque dizem e não fazem; Pois atam fardos
pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém,
nem com o dedo querem movê-los. Mateus 23:1-4.
No entanto, se observarmos com mais atenção a vida de João,
perceberemos que mesmo ele, teve dificuldades diante da novidade do evangelho,
assim como muitos de nós hoje, tentamos acondicionar o novidade da boa do reino
de Deus, ao velho e maligno sistema do mundo, na tentativa de fazê-la mais
compreensiva a nós mesmos, e usufruir de seus benefícios. João, mesmo
representando um rompimento com o sistema religioso de seu tempo, ainda trazia
em si o ranço da religião epitomisada pelo comportamentalismo externo, pela
aparência e pelas geografias.
É por isso que João, no capitulo onze de Mateus, depois de
ouvir falar de como Jesus agia, se escandaliza com Ele, e manda seus discípulos
questionarem Jesus Cristo dizendo: És tu aquele que estava para vir ou
havemos de esperar outro? Mateus 11:3. E recebe como resposta, depois
de referências aos sinais messiânicos, uma bem-aventurança para aqueles que não
agem em conformidade com a atitude que João está tendo. E bem aventurado é
aquele que não achar em mim motivo de escândalo. Mateus 11:6.
OJesus dos evangelhos é escândalo para a religião por causa da
cruz. O Cristo crucificado é loucura para a sabedoria deste século ou deste
mundo. A única maneira de acomodar Cristo às religiões é retirarmos o escândalo
da cruz. Só que neste caso já não será mais o Cristo dos evangelhos, mas sim,
mais um ídolo com o nome de Jesus Cristo, criado pelas religiões, sem poder para
salvar, e recheado de sabedoria deste mundo, com o intuído de enganar as
multidões exercendo sobre elas controle e obtendo delas lucro. Que Deus nos
livre disto! Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os
judeus, e loucura para os gregos. Mas para os que são chamados, tanto judeus
como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus.
1Cor 1: 23- 24.
O problema é que, a novidade do reino de Deus não cabe em
nenhum sistema produzido pelo homem, do mesmo jeito que Jesus não coube. Jesus
se vestia como todo mundo (Marcos14:44), comia e bebia com todo mundo (Mateus
11:19), congraçava com pecadores e publicanos (Lucas 5:27), puxava papo com uma
divorciada (João 4:7), do mesmo jeito que tinha uma palavra de aceitação, amor e
libertação para uma adúltera (João 8:11), tocava em leprosos (Mateus 8:3),
recebia um ladrão em seu reino com base em Seu sacrifício, capaz de justificá-lo
e santificá-lo (Lucas 23:43).
O problema é que, não se põe vinho novo em odre velho, O
problema é que, não se pode ver o reino de Deus se não nascer de novo, e que,
não é possível nascer de novo sem ser crucificado com Cristo. O problema é que,
ainda que possamos reproduzir comportamentos morais socialmente aceitáveis, não
podemos produzir vida em nós mesmos. O problema é que, Jesus não veio buscar
justos, perfeitos, e nem os sadios. Estes não precisam de Jesus Cristo
crucificado.
Na realidade, o que temos visto na religiosidade cristã
pós-moderna é a pregação de um Cristo sem Cruz. Isto porque este Cristo sem Cruz
não representa nenhuma ameaça ao velho, uma vez que não tem a pretensão de fazer
nova todas as coisas. Antes, esse Cristo, parece estar comprometido em perpetuar
um mundo que jaz no maligno, não revelando aos homens a extensão e a gravidade
do pecado, fazendo com que vivam no engano da justiça própria - um mundo “onde
os fracos não tem vez” O que vemos, na verdade, é um esforço na tentativa de
“fabricar” um Cristo à imagem e semelhança dos homens isto porque, o verdadeiro,
para muitos, é um escândalo, uma pedra de tropeço. Alexandre Chaves.
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